Trem

Após o Portal Viva ter divulgado na última segunda-feira, a matéria sobre a Estação de Caucaia (leia aqui), recebemos uma chuva de emails, parabenizando pelo conteúdo e pelas fotos, e também levantando a questão do impacto ambiental que temos ali. Muitas foram as perguntas e as colocações.

Decidimos então ir à campo, para checar tudo isso de perto e mostrar na íntegra o que ocorre.
Com a parceria e o conhecimento de quem mais entende do local: A Defesa Civil.

Acordamos cedo, e seguimos rumo ao quartel dos Bombeiros, no km 34, onde a equipe da Defesa Civil nos aguardava para um trajeto de monitoramento. Local: A estrada férrea que passa dentro da Reserva do Morro Grande.
Sob o comando do coordenador da Defesa Civil, José Rafael Miguel, o "Rafael", e com o apoio da sargento Priscila e do sargento Cestari, deixamos nosso carro ali mesmo, e nos tornamos parte da expedição.

Bombeiros

O primeiro passo foi parar no posto do km 39, para um café reforçado.
De lá, seguimos rumo à Estação de Caucaia, (que fica no km 100 da ferrovia), para verificar os horários dos trens, antes de "entrar literalmente na linha".

De posse dessa informação, descemos até o centro de Caucaia, e entramos na Vila São Luiz, rumo à entrada da "turma do 102", referência ao kilômetro onde inicia a área de conservação.

Caucaia

Ali, a exemplo da Estrada dos Pereiras, existe também uma estrada paralela aos trilhos, e seguimos no carro da defesa civil, acompanhando as explicações do Rafael. Se alguém sabe muito sobre o assunto, esse alguém é ele, não há dúvida! Nascido e criado em Cotia, e bem pertinho da Reserva, ele não hesitou em transmitir todo seu conhecimento. Um presente!

Já na área de conservação, soubemos que estávamos em propriedade particular, porém já dentro da Reserva.
Fizemos algumas fotos e seguimos em frente, rumo ao ponto onde passa o cinturão verde, e onde fica a trilha dos jipeiros.
Rafael nos disse que o maior problema ali, são as composições (locomotivas e vagões), por causa do óleo diesel. Nos dormentes ao longo da ferrovia, pode-se ver nitidamente as marcas de óleo.
Além disso, as sementes que são derrubadas dos vagões durante o trajeto, acabam brotando ao longo dos trilhos, e os pés de milho estão secos, o que em época de chuva, sugere que tenham sido borrifados com algum produto químico, que em caso de mais chuva pode infiltrar no solo e contaminar o lençol freático.
Além do milho, pudemos ver sementes de soja nos 12 kms que se seguem.
(Essas sementes na beira do trilho alteram todo o ecossistema, trazendo roedores e animais silvestres para a beira da linha, como antas, pacas, tatus, cotias, raposas, etc).

Soja

Ao chegarmos à um ponto da ferrovia, paramos para ver uma "rampa" paralela à linha do trem.
Rafael nos mostrou que se trata de uma parte da trilha dos jipeiros, que ali cruzam os trilhos, e sobem cruzando toda a reserva passando pelo bairro dos grilos, por Itapecerica e chegando ao Caputera.

Trilha

Mais à frente, um flagrante: em 100 metros de extensão, mais de 30 dormentes deterioradas, faltando grampos, etc.
"Se a composição tem vários litros de diesel, e ele vai caindo, causa o apodrecimento dos dormentes, e pode causar o descarrilamento", disse o coordenador.
Em meio ao silêncio, lá longe, um sussurro. Lá vem o trem!
Encostamos o carro bem longe do trilho, e ficamos ali esperando. Ao nos ver, lá longe, o maquinista apita e dá farol. Lá vem uma composição de três locomotivas e mais de 100 vagões, dentro da Reserva!
No ponto de inclinação onde estávamos, pudemos ver a dilatação dos dormentes.

Trem

O trem se vai e nós continuamos nosso "passeio". No km 105 da ferrovia, no chamado "Campo do Maciel", encontramos uma pequena nascente. Se houver contaminação, vai direto para a Represa.
Já no km 106, pudemos ver a divisa com Ibiúna, lá no alto, segundo Rafael, onde é o local da provável nascente do Rio Cotia...e perto dos trilhos começam a aparecer os GPS´s para monitoramento da estrada de ferro.
No km 107, outro flagrante: açúcar derrubado nos trilhos, e mais à frente, outro material não identificado, mas que tudo indica ser calcário.

Calcario Açucar

Na sequência, chegamos ao desvio. Lá, onde a composição fica estacionada enquanto não retoma o caminho, mais descaso com a Reserva: materiais que foram substituídos e abandonados, pets, um disco de corte, embalagens de óleo para transmissão automática, e até um capacete.
Ali acontece o encontro das composições para fazer a transposição de locomotivas de leste para noroeste, dentro da área da Reserva, diz Rafael.
Em alguns vagões a inscrição: "Produto Solúvel e Inflamável". Mas na grande maioria deles, falta a placa de identificação.

Lixo Lixo

Fomos conversar com o maquinista, que iria iniciar dali a viagem. Perguntei o que ele levava no trem. Ele respondeu: pedra fosfática, um tipo de minério em pó. Químico. No trem ao lado, enxofre.
Foi então que ele nos convidou para subir na cabine da locomotiva. Um espaço pequeno, de nos máximo 3m x 1,5m, onde o maquinista nos mostrou os comandos de tração, de freio, e de frente e de ré. Após a sessão de fotos, entramos no carro, e seguimos rumo ao km 111, onde a represa transpassa a linha do trem, em direção ao "paredão" da barragem.

Cabine

Mais à frente, o primeiro túnel, e como os deuses estavam do nosso lado o tempo todo, tivemos a felicidade de ver um trem saindo dele e soando o apito ao nos ver. Atrás dele, depois de muitooooosssssss vagões, duas motocicletas. Eram os vigilantes do perímetro da Reserva, Edilson e César, da ETA Alto Cotia (SABESP), que pararam para nos dar bom dia e tirar algumas fotos.

Água Equipe

Entramos no túnel e fomos beber água da fonte que brota lá dentro. Fresquinha! Uma delícia!
Ao sair do túnel, nos deparamos com um vagão descarrilado no km 112, uma verdadeira ameaça no meio da Reserva.
O último túnel, no km 116, já estava pertinho da saída para Itapecerica.

Já eram 13 horas, e não vimos a manhã passar.
Para completar a manhã maravilhosa, fomos convidados para almoçar no corpo de bombeiros.
A companhia do grupo e a comidinha caseira com certeza nos conquistaram! Obrigada meninos!

Definindo a nossa expedição, posso dizer que foi tudo perfeito. Conseguimos ver tudo que queríamos.
Uma mistura de realização com emoção, era o que estávamos sentindo ao sair da Reserva.
Um lugar maravilhoso. Uma sensação de responsabilidade maior ainda!

Não há fiscalização dos materiais que são transportados ali dentro.
O município tem por direito de exigir isso da empresa que trafega ali.
Não podemos colocar em risco a saúde desse patrimônio.
Todos somos responsáveis!
O que queremos deixar para os nossos descendentes?
Eu quero deixar todas as fotos maravilhosas que fiz.
Mas antes das fotos, quero que eles vejam tudo bem de perto, intacto, preservado, com a mesma emoção que eu senti quando entrei e quando saí dali.
Você também não quer o mesmo que eu? Aposto que sim!

Fau Barbosa

Direto da Reserva do Morro Grande


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