À partir de hoje, o Portal Viva em parceria com o Jornal Mais Conteúdo, exibe uma série de reportagens que retratam o abandono de quem vive nas regiões limítrofes das cidades.

Nestes casos é comum cada município jogar para o outro a responsabilidade.

Km 21 - Divisa de Cotia, Carapicuíba e Osasco

Composto pelos bairros Santa Izabel, Santa Ângela e Santa Maria, onde está situada a Comunidade do Chiclete, o km 21 foi a primeira região visitada. Ele é formado pela conexão dos municípios de Cotia, Carapicuíba e Osasco.

A comunidade do Km 21 conta com uma população que vive de promessas por parte dos políticos, que muitas vezes aparecem somente em época de eleição, e muita esperança por contar com uma Sociedade Amigos de Bairro que luta bravamente para que as dificuldades sejam vencidas.

O córrego Carapicuíba, como é conhecido, corta a região e inunda as margens toda vez que chove um pouco mais forte. É cercado por moradias e recebe o esgoto da região, que transita a céu aberto.

Esgoto á céu aberto. A moradora Sueli perdeu os móveis dos quartos. Ao fundo, o trator da Prefeitura de Cotia faz a limpeza do córrego.

Outro problema pode ser visto logo na entrada do bairro. A Rua Sítio do Ribeirão, que liga o bairro Santa Izabel à Raposo Tavares, exibe um perigoso barranco de onde desliza uma grande quantidade de terra a cada temporal.  O córrego, que faz divisa com Osasco, recebe toda a terra deslizada, sobe agressivamente e invade as residências. Já foi providenciada uma parcial canalização mas não foi o suficiente.

Segundo o Presidente da Sociedade Amigos de Bairro do Km 21, Fernando Guedes de Almeida, morador há 36 anos da Rua do Cristo, seria necessário uma nova canalização e a construção de galerias abertas para a contenção das águas e obviamente esgoto. Além disso, ele acredita que para uma melhor qualidade de vida, o poder público deveria reurbanizar toda a região, retirando as famílias das áreas de risco e dando condições básicas de moradia e sobrevivência.

Rua Sítio do Ribeirão, que liga o bairro à Raposo Tavares, recebe grande quantidade de terra quando chove.

Assim também pensa a moradora, Maria Aparecida Alves de Oliveira, “deveria existir um programa habitacional para as vítimas do 21”.

A prefeitura que melhor os socorre é a de Cotia, mas insuficiente, diante de tantas dificuldades. Do lado de Osasco um imenso lixo sempre se acumula e as ruas não têm nenhuma qualidade, como a Rua Ribeira que só tem terra e muitos buracos. É uma pena, pois seria uma excelente alternativa para, à partir de Cotia, as pessoas se dirigirem ao comércio do 21, sem ter de entrar na Raposo e fazer a volta no km 19.  Fernando afirma que toda a comunidade necessita de ações resolutivas e não paleativas. “Os problemas são sempre os mesmos. Apesar da Prefeitura de Cotia providenciar constantemente cuidados com o córrego, sempre a próxima chuva vai judiar dos moradores”.

O único Posto de Saúde existente na região permaneceu fechado no dia em que nossa equipe esteve no local. O motivo: inundação. O líder comunitário justifica que o posto, além desse problema, sofre com as grandes filas no atendimento, “o Postinho, que pertence a Cotia, atende também a população de Osasco e Carapicuíba”, explica ele. Não é  diferente com as escolas municipais, que atendem crianças dos três municípios. O campo de futebol, única área de lazer da região, exibe problemas sérios de drenagem e aguarda há tempos por reforma.

As carretas das empresas de Osasco cortam caminho pelos bairros provocando longos congestionamentos e deixando intransitáveis algumas ruas. Apesar dos imensos buracos, passam em alta velocidade colocando em risco a vida das pessoas, principalmente crianças.

Fernando, presidente da SABS, aponta o córrego com muito lixo. Perigo de doenças e contaminação. No Chiclete, crianças vivem em meio de sujeira e até porcos.

Comunidade do Chiclete – uma realidade difícil

Na comunidade do Chiclete a população é condenada a uma pobreza progressiva. Segundo os moradores, há três eleições prometem um campinho na Comunidade que nunca foi construído. Crianças e jovens sofrem com a falta de uma área de lazer e a ONG Projeto Cruzeiro sabe bem o que é isso. Há 10 anos luta por um espaço para os jogos de futebol na Comunidade que geograficamente pertence uma parte a Cotia e outra a Carapicuíba. Na sede da Sabs, os voluntários da ONG conseguem ministrar  aulas de capoeira, ajudando a tirar muitas crianças da criminalidade. Porém, isso só acontece durante o dia. À  noite, a sede da Associação permanece fechada por falta de iluminação pública.

Um dos pontos críticos do Chiclete, a Rua Poker, que pertence a Carapicuíba, parece não existir no mapa. É completamente esquecida pelo poder público municipal, assim como as famílias que ali residem. Fernando possui um documento que relata o descaso do governo de Carapicuíba com a população. A iluminação pública desta rua foi conquistada através da Sociedade Amigos de Bairro do Km 21. O município vizinho não oferece à comunidade nem escola municipal e tão pouco Posto de Saúde.  

Solidariedade e Cidadania

As chuvas do dia 14/01 atingiram cerca de 47 famílias da Rua do Cristo sendo 24 da Comunidade do Chiclete. De acordo com Fernando, esse é o número de  pessoas que foi em busca de donativos na Igreja, já que a sede da Sabs também alagou. Algumas famílias se recusam a sair de suas casas e não aceitam qualquer tipo de auxílio. Toda a assistência às vitimas é prestada em parceria com o Fundo Social de Solidariedade de Cotia. Alguns moradores cozinham e abrem suas casas para os que foram lesados. Quando a chuva passa, um mutirão é feito para limpar as residências das vítimas.

Suzana Aparecida de Camargo é uma das moradoras parceiras da Sociedade Amigos de Bairro, “minha esperança é ver o meu bairro diferente e que as pessoas não percam mais as coisas que conseguiram com tanto trabalho”.

A Sabs, em parceria com empresários da região, já construiu três residências para vítimas das chuvas. Uma das contempladas foi a simpática Pâmela,18, que ganhou uma cadeira de rodas de última geração, avaliada em R$8 mil, e uma casa do empresário Fernando, diretor da Agência de Empregos Toppy, de Cotia.

Ano passado foi feita uma limpeza em todo o córrego até o Rodoanel. O Deputado Willian Woo levou a diretoria da Associação até o DAEE –  Departamento de Águas e Energia Elétrica, que providenciou o trabalho. No entanto, grande parte da população continua jogando lixo no córrego, acarretando o seu entupimento.

Moradores dizem que até guarda-roupas já foi visto boiando. Atualmente, é feito um trabalho de prevenção da Associação com as famílias, para que nada mais seja jogado no córrego.

O lixo jogado no rio sempre volta contra a comunidade.

Matéria e fotos: Mariana Marçal



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