Por César Tibúrcio
Todos os dias milhares de pessoas em todo o mundo deixam suas familias para viver uma vida de solidão e mendigagem, os motivos são inumeros, bebidas, desentendimento com a familia, drogas, o fato de quererem viver só, etc.

Aqui na cidade de Cotia, não é diferente, basta dar uma volta pelo centro da cidade que encontramos algumas dessas pessoas, que muitas das vezes precisam apenas de uma “mão amiga” para ter a dignidade de volta.

Algumas dessas pessoas ficam até famosas, como por exemplo, quem não conhece ou nunca ouviu falar da “Ana louca”? Tem até comunidade na internet dedicada a ela. É uma senhora que ninguém sabe se realmente tem algum problema mental ou se é na verdade muda. E o que será que ela leva em sua inseparável sacola.

Sepultura no cemitério "velho", no centro de Cotia, doada por Roque Savioli para enterrar os mendigos da cidade

E aquele rapaz alto que vivia com uma “baratinha” pelo centro da cidade na década de 80? Era o “Jorjão da baratinha” ou “Montanha”, era uma figura que andava com um carrinho de rolimã feito de uma grande caixa de madeira, que na verdade era seu meio de sobrevivência, pois era onde engraxava os sapatos das pessoas. Uma grande característica dele era um defeito nas pernas, vivia rodeado de cachorros vira-latas da rua. Todos que o ajudavam ele chamava de pai e mãe. Segundo consta, no dia em que morreu, doente, pediu ao padre Luiz Antonio Sochiarelli que ascendesse uma vela, pois estava precisando de luz, naquele mesmo dia de calor, ele morreu. Diziam que o Jorjão era sobrinho do “João Louco”, outra figura que bebia muito e vivia nas ruas do centro da cidade, sempre estava na porta da escola Batista Cepellos e as crianças viviam gritando seu nome e mexendo com ele, mas nunca fez mal a ninguém.  

No passado de nossa cidade também existiam andarilhos e mendigos eram pessoas quase que folclóricas, mas naquele tempo (entre os anos 30 a 60) era diferente, por exemplo o cidadão da foto era um desses que algumas vezes tinha a liberdade de entrar nas casas de alguns moradores do centro da cidade para tomar café, de tanta confiança que as pessoas tinham nele.

"Tinha até uma caneca reservada para ele nas casas de alguns que ele ajudava na limpeza dos quintais, cortando madeira, carregando latas de água entre outras tarefas", lembra a senhora Maria Aparecida Pedroso. Era o senhor Antonio Branco, mais conhecido como “Morrudo”, homem alto, bem educado, que dos anos 30 aos 60, costumava trabalhar em troca de comida, café e cigarros.

Antonio Branco, mais conhecido como o mendigo Morrudo

A sra. Conceição lembra que quando ela era criança, seu pai dava ao “Morrudo” maços de cigarro da marca Pullman (era um vermelho com letras brancas) ou Macedônia (era de cor laranja com letras brancas). Quem o conheceu certamente vai se  recordar pela foto e lembrará que seu rosto era só alegria e paz.

Tinha também o Batutinha, indivíduo alto, moreno de olhos claros que nas décadas de 50 e 60 andava muito rápido pelas ruas do centro da cidade, mesmo tendo um problema numa das pernas, brincava com todos dizendo repetivamente a frase: “Batutinha, Batutinha, beijinho beijinho, chuá, chuá” e assim que mandava seus beijos, saia correndo rápidamente.

Na década de 50, o “bêbado japonês” era outro homem que também está na lembrança de muitos. Era um senhor de estatura baixa que tinha mais a fisionomia de índio do que nipônico, Bebia exageradamente e por isso vivia dormindo pelas portas das casas da cidade. Aparecia as vezes com o cabelo loiro, outra vez pretos, vermelhos, algumas pessoas brincalhonas pintavam até seu rosto, por isso o apelido de Índio, quando acordava era muito malcriado, e isso faziam com que todos o evitassem.

Havia também um homem de cor negra, altura média, cabelos brancos e encaracolados, dentes muito brancos e separados, aparentava ter 70 anos. Com essa descrição quem o conheceu irá certamente lembrar-se do “Zastre” que nos anos 60 vivia com um saco de roupas nas costas e cantarolava pelo centro de Cotia:

De madrugada canta o galo no paiol
De madrugada canta o galo no paiol
Ele faz qui ri qui qui
Ele faz cocorô côcó

Um dia perguntaram:

– Zastre, por esse apelido?

Ele respondeu:

– Porque que minha mãe dizia que eu era um desastre na vida dela.
– Onde mora sua mãe?
– Não sei, nem me lembro mais do rosto dela. Respondia ele com os olhos em lágrimas.

Fotos: Dona Conceição e César Tibúrcio

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