Mulher, três filhos, visitas inconvenientes, enfim, rotina. No começo de "Shrek para sempre", quarto e supostamente último filme da franquia, que chegou nesta sexta (9) aos cinemas, reencontramos o ogro mais querido da animação entediado.

Afinal, desde que estreou no cinema em 2001, ele já salvou a princesa de um dragão, casou, encarou os sogros, salvou o Reino de Tão Tão Distante e, agora, só quer curtir o seu banho de lama sossegado sem ninguém para encher o saco.

Não será fácil assim. Galinha dos ovos de ouro do estúdio Dreamworks, Shrek já venceu um Oscar, emplacou duas entre as 25 maiores bilheterias do mundo, inspirou parques de diversão e até um musical na Broadway.

O paralelo entre o mundo de conto de fadas e a realidade comercial da franquia é bem traduzido logo em uma das primeiras sequências de "Para sempre". Na festinha de 1 ano de seus trigêmeos, Shrek é pressionado por uma criança chata e de voz cavernosa a se comportar como um ogro: "dá um urro, Shrek... dá um urro, Shrek... pai, você falou que ele ia dar um urro... um urro, Shrek..."

Cansado dessa vida domesticada, o personagem assina um contrato duvidoso com Rumpelstiltskin, espécie de duende mágico saído dos contos dos Irmãos Grimm, que promete devolver a Shrek um gostinho de como era sua vida selvagem antes da "fama". Em troca, o baixinho bom de lábia convence o ogro a abrir mão de um dia "qualquer" de sua vida. Rumpelstiltskin escolhe o dia de nascimento de Shrek, e quando o feitiço acabar todos os eventos da vida do personagem, e das pessoas que o cercam, serão apagados do mapa.
Nessa realidade alternativa, Shrek nunca conheceu Fiona nem Burro, o antes destemido Gato de Botas agora está mais para o gordão Garfield, e o Reino de Tão Tão Distante está sob o domínio de Rumpelstiltskin e seu exército de bruxas más.

Flautista de Hamelin encontra Beastie Boys
Para além do "novo" vilão - na verdade, recauchutado do terceiro filme -, há umas poucas boas supresas pelo caminho. Reinventada como uma espécie de guerreira bárbara saída das HQs de Conan, Fiona lidera um exército subterrâneo de ogros que nunca tinham dado a cara na série.
E a estreia do Flautista de Hamelin, contratado por Rumpelstiltskin para atrair e capturar Shrek com sua música - como fazia com os ratos na fábula infantil -, ajuda a manter vivo na franquia um de seus principais acertos: o uso inteligente da música pop. Em uma das cenas, ele toca a famosa introdução de "Sure shot", dos Beastie Boys, para hipnotizar suas vítimas.

Mas, graças a um roteiro previsível e pouco inspirado, o flautista - assim como os bebês fofinhos de Shrek e Fiona - entram mudos e saem praticamente calados da história.

Escorado na certeza de que tudo voltará a ser como antes e que todos viverão felizes para sempre, como sugere o próprio título da aventura, o diretor novato Mike Mitchell acaba transformando este em apenas mais um capítulo - e não "o final" - na saga do ogro. Nem o uso do 3D, tecnologia que faz sua estreia na série, acrescenta muita coisa.

Ao contrário de sua rival Pixar, que recentemente conseguiu levar lágrimas aos olhos do público com a despedida de seus brinquedos no emocionante "Toy story 3", a Dreamworks tira seu principal mascote de cena pela porta dos fundos e sem um "The End" digno do personagem.
Como em boa parte das franquias de Hollywood, o primeiro continuará sendo "para sempre" o mais querido entre os fãs e, com sorte, os últimos serão pouco a pouco esquecidos. Agora, por favor, será que poderiam deixar o ogro descansar em paz?



A família de Shrek em cena de 'Para sempre'. Bebês fofinhos aparecem pouco no filme (Foto: Divulgação)

Do G1, em São Paulo

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