Por Fau Barbosa

Foi com muito carinho e simplicidade, que o mestre da Congada, "seu" Benedito, nos recebeu em sua casa, nesse 13 de maio, data em que é comemorada a Abolição dos Escravos, com a festa da Congada, que interpreta o ritual de coroação de um Rei Congo como forma de afrontamento à Escravatura.

As filhas Elisete e Sonia foram de uma simpatia sem igual. E nossa reportagem se encantou com uma aula detalhada de história, onde ele nos contou suas origens, falou sobre sua avó paterna na época da abolição, e sua cidade de origem, São Luis do Paraitinga. Foi uma viagem no tempo.



"Seu" Benedito nasceu em 1936.
Seu pai, João Antonio Pereira de Castro era cantador e mestre de roda de samba. Suas raízes são africanas: "Minha avó era do Congo", contou.
Ele saiu de São Luis do Paraitinga ainda menino e foi para Taubaté, terra de Monteiro Lobato.
"Quando eu tinha 8 anos, meu pai falou: Vai sair para o mundo, que o mundo vai ensinar você a viver", disse. "Apesar de ter tido uma infância sofrida, uma vida sofrida, como a de São Benedito, eu sou feliz, graças à Deus", disse sorrindo.

Trabalhando no Vale do Paraíba, ele plantava arroz na região. "Os lavradores enfiavam o dedo no charco, com as sementes e em pouco tempo os brejos estavam todos verdes, cheio de arroz. As crianças ficavam batendo latinhas para espantar os passarinhos das plantações", contou.
Com 9 anos, ele ganhava 500 réis.
No carnaval de 1947, um irmão mais velho foi buscá-lo para viver com ele. O irmão já tinha um grupo pequeno de "Moçambique", mas queria montar um grupo familiar.
"Se formou um grupo com mais ou menos 12 pessoas, tocando uma caixinha, enquanto alguns batiam os pauzinhos", disse ele. O irmão mais novo, aprendeu a tocar uma sanfoninha, que mais tarde, já em Cotia, foi o 1º instrumento a ser tocado na Congada. "Ela foi comprada em Cotia", falou.



"Aqui em Cotia, um padre já falecido, espalhou na cidade que as pessoas não deviam andar atrás do nosso grupo. Ele dizia que era coisa de Satanás. Aqui  não havia negros, apenas duas famílias' falou.

Suas filhas fizeram questão de nos mostrar um acervo de fotos de várias épocas da Congada, espalhadas por toda a matéria do Portal Viva Cotia.

Ele nos contou também que seu pai morou dois anos com sua mãe no Sítio do Padre Inácio, como funcionário do Estado, tomando conta do lugar. "Cotia era muito pequena, tinha no máximo 2 mil pessoas, contando as crianças. Não tinha iluminação, era tudo escuro. Tinha uma única rua que era a da igreja, o resto era tudo mato", conta.
Em 1952, chamei meu pai e falei: "Pai, vamos fazer um moçambique". "Eu sempre que fui o compositor, as letras são todas minhas", disse.
Dali, saiu a Congada de São Benedito. Ele nos contou também que a dupla Edson e Hudson começou cantando na Congada.

Seu Benedito nos mostrou a Espada de Dom Pedro II , com o brasão real, que ele guarda, presente de um senhor que dança na Congada, cuja família é de origem portuguesa. Nos contou a simbologia da Princesa Isabel assinando a Lei áurea - "a imagem dela já está na Câmara aguardando um vestido novo para a festa", disse.

E aproveitou para tocar e cantar várias "modinhas" para nossa reportagem, entre uma história e outra das origens de sua família, de seus avós escravos, e do seu envolvimento e da sua família com a Congada.

(Assista com exclusividade, o videoclip do "seu" Benedito no final dessa matéria).

Saiba mais sobre a Congada de Cotia

Para uns, a Congada é o mesmo que a Dança do Moçambique. Mas, apesar de ambos os estilos da Cultura Afro-Católica terem como padroeiro S. Benedito, há diferenças:

A "Congada" tem embaixada e a sua dança tem um ritmo cadenciado que lembra os ritmos célticos de uma região montanhosa de Portugal, enquanto que o "Moçambique" não tem embaixada e é um cortejo mais rude.

A Festa da Congada está em Cotia desde meados do Séc 20 e faz parte dos eventos comunitários da região, comemorado no dia 13 de Maio, em louvor à Raça Negra, ao Brasil e a S. Benedito.

A Congada é um grande evento, que inclui os cantos, danças, bebidas e comidas vendidas nas barracas, com a locução do famoso Zé Galinha. Segundo a tradição, eles saem da Câmara de Cotia com o busto da Princesa Isabel.

Os congadeiros de Cotia, Lorena, Taubaté, Pindamonhangaba e Mogi das Cruzes, seguem em cortejo até a vila São Joaquim ao som de fogos de artifício, tambores, sanfonas, violões e cantorias.  

Todos uniformizados, eles lembram as polícias de D. Pedro II, e dançam a ‘dança dos pauzinhos’, ou ‘paus de fitas’, e cantam as encantadoras e belas canções do Seu Benedito:

“A estrela lá no céu/Clareou, clareou/Viva nossa Liberdade/Obrigado, meu Senhor!”), num agradecimento à abolição da escravatura. As vozes entoam alegres: “No dia 13 de maio/lá no céu apareceu/a virgem Nossa Senhora/a Rainha, mãe de Deus”.



Para a realização da Congada, toda a comunidade cotiana faz doações, de alimentos, emprestam cobertores e colchões, para os congadeiros que vem de longe. É um evento também religioso. "A Prefeitura sempre me ajudou', disse seu Benedito.

Há todo um simbolismo na tradição. Seu Benedito nos contou que o "Cortejo" sai da Câmara do Vereadores, levando uma autoridade, a Princesa Isabel (que assinou a Lei Áurea).  Na frente vai a Princesa, levada pelos bombeiros, e dentro do carro o Sr. Benedito. Em seguida o estandarte “Congada de São Benedito de Cotia”.

(Após sairmos da casa dele , demos uma passadinha na Câmara e a "Princesa Isabel" já está lá, pronta para ser vestida).

Na praça dos camelôs, viram à direita, na Av. Antônio Matias de Camargo, rumo à sede da Congada, onde um palco grande, com equipamento de som, recepciona o público. Também é rezado o terço na casa do Sr. Benedito.

No domingo de manhã, todas as Congadas se encontram para a missa e à tarde, acontece o Encontro dos Andores e o Encontro das Bandeiras, com cantos, danças, e muita devoção.

A Congada vai até a noitinha, quando é hora de se despedir: as bandeiras são recolhidas, os festeiros se abraçam. Uma comunidade simples, bonita, unida, e que proporciona uma grande e valiosa manifestação cultural, religiosa e folclórica que enriquece a história da nossa Cidade.

Acervo de fotos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos e vídeo: Fau Barbosa

Fotos antigas: acervo da família do Sr. Benedito

Assista com exclusividade, o videoclip do "seu" Benedito

 

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