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Estado de SP é o único produtor do soro que neutraliza veneno da lagarta Lonomia


Instituto Butantan produz 5 mil ampolas por ano; veneno provoca alteração na coagulação e hemorragia grave, que podem levar à morte.


Na década de 1990, os envenenamentos pela lagarta Lonomia oblíqua dispararam nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, devido principalmente ao desmatamento, que aumenta a população de lagartas em áreas urbanas. Em casos mais sérios, o veneno presente nas cerdas da lagarta provoca alteração na coagulação e hemorragia grave, que podem levar à morte se o paciente não for tratado rapidamente. Isso motivou o desenvolvimento do soro antilonômico pelo Instituto Butantan em 1996 – até hoje, o Brasil é o único país produtor desse antiveneno.


O soro contém anticorpos capazes de neutralizar o veneno em circulação no sangue, normalizando os parâmetros de coagulação e evitando complicações graves. A dose depende da gravidade do envenenamento, definida a partir da intensidade dos sintomas e sinais clínicos. O Butantan produz 5 mil ampolas por ano e envia ao Ministério da Saúde, que distribui o medicamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).


“É muito importante que a pessoa procure o serviço médico o mais breve possível após ter contato com uma lagarta. Se possível, fotografar o animal pode ajudar a agilizar o diagnóstico e, consequentemente, a aplicação do soro”, aponta a médica Ceila Málaque, do Hospital Vital Brazil (HVB), do Instituto Butantan, referência no tratamento de pacientes acidentados com animais peçonhentos. Ela recorda diversos casos de envenenamento por lagarta e das consequências da demora do atendimento.


Um dos mais marcantes ocorreu no Canadá em 2008 com uma jovem de 22 anos, que procurou um hospital sete dias após ter pisado descalça em cinco lagartas durante viagem ao Peru. Nativa da América do Sul, a Lonomia também costuma atingir pessoas que viajam para esses locais. Nessas situações, profissionais de saúde entram em contato com o Hospital Vital Brazil para solicitar apoio no diagnóstico e no envio do soro. O relato do caso foi publicado pelos pesquisadores canadenses na revista Canadian Medical Association Journal.


“Imediatamente após o contato com as lagartas, a jovem sentiu dor e queimação no pé, irradiando-se para a coxa. A dor piorou quando ela andou. Uma dor de cabeça também se desenvolveu. Tanto a dor no pé quanto a dor de cabeça desapareceram nas 12 horas subsequentes e ela não procurou atendimento médico naquele momento”, informa o artigo.

Quando decidiu buscar tratamento, uma semana após pisar nas lagartas, a paciente apresentava manchas roxas na pele e sinais de coagulação. O Hospital da Universidade de Alberta fez contato com o Butantan e recebeu o soro em 48 horas, no décimo dia depois do envenenamento – terceiro dia de internação. No entanto, o quadro da jovem já havia progredido para hemorragia pulmonar, lesão renal aguda e coagulação intravascular, levando à falência de múltiplos órgãos.


Saiba como prevenir acidentes

No Brasil, os registros de envenenamento pela lagarta Lonomia predominam entre janeiro e abril, podendo ocorrer em zona urbana ou rural. Segundo o Ministério da Saúde, os mais acometidos são homens na faixa etária de 20 a 49 anos. Foram reportados 42.264 acidentes entre 2007 e 2017, sendo 248 casos graves e cinco mortes. Fatores de risco para a gravidade envolvem a quantidade de veneno inoculado e a intensidade do contato com as lagartas.


Durante o dia, as lagartas costumam ficar agrupadas em repouso nos troncos de árvores frutíferas, como abacateiro, pessegueiro e pereira. À noite, saem para se alimentar das folhas da planta. Se avistar os animais em alguma região urbana, não mexa neles e acione o Controle de Zoonoses para que eles tomem as providências necessárias. Caso sofra um acidente, jamais tente capturar a lagarta, apenas tire uma foto para auxiliar no diagnóstico.

Veja no infográfico mais informações sobre como evitar e o que fazer em caso de envenenamento:

Soro neutraliza o veneno rapidamente

O soro antilonômico age rapidamente na neutralização do veneno, principalmente quando aplicado precocemente. Foi o caso, por exemplo, de um relato recente de envenenamento no Rio Grande do Sul publicado no The New England Journal of Medicine. Um homem de 44 anos apresentava hematomas espalhados pelo corpo e sangue na urina há quatro dias quando procurou o pronto-socorro. Ele havia caminhado por uma mata e sentido uma “picada aguda” na coxa esquerda. O soro antilonômico foi administrado e, em apenas três horas, o sangue na urina havia diminuído. Após 12 horas, os parâmetros de coagulação começaram a normalizar.

Outro exemplo aconteceu com um homem inglês de 29 anos na Guiana, que foi envenenado ao pisar em uma taturana no dia 24 de março deste ano. Com a dificuldade dos médicos em identificar a causa dos sintomas, amigos próximos do jovem, entre eles uma brasileira, entraram em contato com o HVB seis dias depois do acidente.


Foi quando se iniciou uma força tarefa no Butantan para enviar o soro antilonômico ao paciente. Como o caso era grave e já haviam se passado vários dias do envenenamento, foi recomendada a aplicação de 10 frascos. O homem recebeu o antiveneno no dia 1º de abril e teve alta duas semanas depois. O Instituto recebeu uma carta de agradecimento do Parlamento britânico pelos esforços para salvar a vida do jovem inglês.

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